A Declaração de Veneza

medoo
A escada do desejo e do medo
19 Março, 2015
criseemo
A crise, a Presença e a Graça
19 Março, 2015

A Declaração de Veneza

veneza

A Declaração de Veneza

I FORUM DA UNESCO SOBRE CIÊNCIA E CULTURA
Ciência e as Fronteiras do Conhecimento: Prólogo do Nosso Passado Cultural

Veneza, Itália, 3 a 7 de Março de 1986

Em cooperação com a Fondazione Giorgi Cini, a UNESCO promoveu em Veneza, Itália, de 3 a 7 de Março de 1986, um simpósio sobre ‘Ciência e as fronteiras do conhecimento: prólogo do nosso passado cultural’. O Simpósio, que reuniu 19 participantes de todas as partes do mundo e de distintas especialidades, culminou com um documento que sintetiza as discussões havidas e que passou a ser conhecido como a

DECLARAÇÃO DE VENEZA

1. Estamos testemunhando uma importante evolução no campo das ciências, resultante das reflexões sobre ciência básica (em particular pelos desenvolvimentos recentes em física e em biologia), pelas mudanças rápidas que elas ocasionaram na lógica, na epistemologia e na vida diária, mediante suas aplicações tecnológicas. Contudo, notamos ao mesmo tempo um grande abismo entre uma nova visão do mundo que emerge do estudo de sistemas naturais e os valores que continuam a prevalecer em filosofia, nas ciências sociais e humanas e na vida da sociedade moderna, valores amplamente baseados num determinismo mecanicista, positivismo ou niilismo. Acreditamos que essa discrepância é danosa e, na verdade, perigosa para a sobrevivência da nossa espécie.

2. O conhecimento científico, no seu próprio ímpeto, atingiu o ponto em que ele pode começar um diálogo com outras formas de conhecimento. Nesse sentido, e mesmo admitindo as diferenças fundamentais entre Ciência e Tradição, reconhecemos ambas em complementaridade, e não em contradição. Esse novo e enriquecedor intercâmbio entre ciência e as diferentes tradições do mundo abre as portas para uma nova visão da humanidade, e até para um novo racionalismo, o que poderia induzir a uma nova perspectiva metafísica.

3. Mesmo não desejando tentar um enfoque global, nem estabelecer um sistema fechado de pensamento, nem inventar uma nova utopia, reconhecemos a necessidade premente de pesquisa autenticamente transdisciplinar mediante uma dinâmica de intercâmbio entre as ciências naturais, sociais, arte e tradição. Poderia ser dito que esse modo transdisciplinar é inerente ao nosso cérebro pela dinâmica de interacção entre os seus dois hemisférios. Pesquisas conjuntas da natureza e da imaginação, do universo e do homem, poderiam conduzir-nos mais próximos à realidade e permitir-nos um melhor enfrentamento dos desafios do nosso tempo.

4. A maneira convencional de ensinar ciência, mediante uma apresentação linear do conhecimento, não permite que se aperceba o divórcio entre a ciência moderna e visões do mundo que são hoje superadas. Enfatizamos a necessidade de novos métodos educacionais que tomem em consideração o progresso científico actual, que agora entra em harmonia com as grandes tradições culturais, cuja preservação e estudo profundo são essenciais. A UNESCO deve ser a organização apropriada para procurar essas ideias.

5. Os desafios de nosso tempo (o risco de destruição de nossa espécie, o impacto do processamento de dados, as implicações da genética, etc.) jogam uma nova luz nas responsabilidades sociais da comunidade científica, tanto na iniciação quanto na aplicação de pesquisa. Embora os cientistas possam não ter controle sobre as aplicações das suas próprias descobertas, eles não poderão permanecer passivos quando confrontados com os usos impensados daquilo que eles descobriram. É nosso ponto de vista que a magnitude dos desafios de hoje exige, por um lado, um fluxo de informações para o público que seja confiável e contínuo, e, por outro lado, o estabelecimento de mecanismos multi e transdisciplinares para conduzirem e mesmo executarem os processos decisórios.

6. Esperamos que a UNESCO considere este encontro como um ponto de partida e encoraje mais reflexões do género num clima de transdisciplinaridade e universidade.

Signatórios: A.D. Akeampong (Ghana; físico-matemático); Ubiratan D’Ambrósio (Brasil; educador-matemático); René Berger (Suiça, crítico de arte); Nicoló Dallaporta (Itália; físico); Jean Dausset (França; Prémio Nobel de Medicina); Maitraye Devi (Índia; Poetisa); Gilbert Durand (França; Filósofo); Santiago Genovês (México; Antropólogo); Akshai Margalit (Israel; Filósofo); Yujiro Nakamura (Japão; Filósofo); David Ottoson (Suécia; Presidente do Comité Nobel de Filosofia); Abdus Salam (Paquistão; Prémio Nobel de Física); L.K. Shayo (Nigéria; Matemático); Ruppert Sheldrake (Inglaterra; Bioquímica); Henry Stapp (U.S.A.; Físico) David Susuki (Canadá; Geneticista); Susantha Goonatilake (Sri Lanka; Antropologia Cultural); Besarab Nicolescu (França; Físico); Michel Random (França; Escritor); Jacques Richardson (U.S.A.; Escritor); Eiji Hattori (UNESCO; Chefe do Sector de Informações); V.T. Zharov (UNESCO; Director da Divisão de Ciências).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>