Aceitando a Felicidade

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A crise, a Presença e a Graça
19 Março, 2015

Aceitando a Felicidade

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Aceitando a Felicidade

A maior parte de nós, devido a uma (des)cultura e (des)educação que se instalou lenta e progressivamente ao longo das últimas décadas (ou mais, talvez), tem grande dificuldade em aceitar a Felicidade. Da mesma forma, dificuldade em aceitar elogios, ou outra demonstração qualquer que implique amor, simpatia, generosidade.

Todos ambicionamos a ela, Felicidade, esse estado de bem-aventurança que nos faz sentir leves e mais perto da essência do Ser.

Mas, quelque part, instalou-se no nosso subconsciente um medo ou vergonha ou, pior ainda, sentimento de culpa em sermos felizes, em nos atrevermos a correr o risco de ser felizes. A juntar a isso, vem, frequentemente, a vergonha de exteriorizar os nossos sentimentos, sobretudo se forem positivos e saudáveis. Às vezes, parece que ninguém tem vergonha de mostrar as misérias, as desgraças e há pessoas mesmo que são peritas nas “choraminguices” e outras que se deleitam com a desgraça alheia; para provar tal, basta ver quantas pessoas se juntam, de imediato, ao redor de um acidente, mesmo que o espectáculo seja horrendo, ou como as pessoas adoram comentar as fragilidades dos outros: “coitado, está tão aflito, precisa tanto disto ou daquilo”, etc…, e passam palavra, aumentam as histórias, alimentando-se dessa energia sofredora, como que para “lamberem as suas próprias feridas à custa das feridas dos outros”… usamos e abusamos da palavra “coitado” e alimentamo-nos do “sangue” da tragédia, da negatividade que nos rodeia. Basta ver o índice de audiência dos noticiários que, em mais de 90%, só divulgam desgraças e horrores….

Pelo contrário, se uma pessoa andar alegre e bem disposta, der um grito de felicidade, ou gritar aos quatro ventos “estou feliz!”, provavelmente a maioria julgará de imediato “parece maluco”…., “ah! é um extrovertido exagerado!”, ou ainda “que horror, mostrar aos outros o que se passa na sua vida privada”, ou ainda (o que é quase hilariante!) “é um convencido, quem é que ele julga que é para estar assim quando andamos todos mal???” ….!!!! Enfim, julgar é aquilo que nós mais gostamos de fazer…. esquecendo-nos sempre que, cada vez que apontamos um dedo para fora, temos quatro dedos apontados para nós próprios.

Ao longo da vida, todos nós estamos sujeitos a problemas, desgraças, imprevistos, perdas, contratempos, desgostos. O sofrimento é inerente à condição de estar vivo, encarnado nesta existência. Por vezes chego a pensar que o “inferno” é aqui e não “lá”! Todas essas fases da vida devem ser vivenciadas para que a dor, aceitada, possa ser transformada em apaziguamento, antes de mais, e posteriormente em alegria. Alegria de estar vivo, aconteça o que acontecer. O que se passa é que, na incapacidade de gerir os nossos próprios sentimentos, não sabendo transformar a negatividade em positividade, temos uma dificuldade enorme em aceitar que os outros estejam bem, saudáveis e felizes.

Lembro-me, desde miúda, de ouvir o meu pai dizer-me constantemente “não tenhas medo de dizer o que pensas, mostra o que sentes, não te importes nunca com o que os outros poderão pensar; ninguém pode controlar o que os outros pensam, mas tu podes e deves exteriorizar tudo aquilo que sentes, nunca tenhas vergonha da Verdade e de seres como és”. Em adolescente, arquivei em mim uma frase atribuída a Anatole France (nascido a 16 de Abril de 1805) e que nunca mais esqueci: “Se exagerássemos as nossas razões de felicidade como exageramos os nossos cuidados, estes deixariam de ter qualquer importância”.

Por isso, aceitar elogios, prendas, sorrisos e os momentos de felicidade com que a vida nos vai brindando de tempos a tempos, é saber aproveitar cada momento da existência tal como ela se nos apresenta (*). E ao sermos capazes de fazer isso, seremos automaticamente capazes de nos regozijar com a felicidade alheia. E ao regozijarmo-nos com a felicidade alheia, autêntica e singelamente de coração inteiro, estaremos a abrir caminho para que a Vida nos brinde com mais alegria e bem-aventurança.

Insistir, ficar preso na negatividade, invejarmos o que de bom acontece aos outros, é obstruir o processo criativo e o fluxo vital que pode transformar a nossa existência. Depende apenas de nós que a nossa vida seja “um muro de lamentações” ou um quadro vivo em que todas as estações do ano se vão desenrolando sucessivamente e enriquecendo as nossas almas. Para além disso, a minha alegria será a alegria do mundo e vice-versa, tudo está interligado e a influência de um átomo faz-se sentir em todos os outros.

Portanto, faça um favor a si próprio: seja feliz, por si e pelos outros, e seja sempre grato por tudo isso!
Que bom que era se o mundo todo amasse, sorrisse e cantasse! A guerra acabaria, com certeza…. tal era a energia que se implantava sobre o planeta!

(*) a propósito disto, aproveite para ver o último filme do Woody Allen, em exibição, “Whatever works” (“Tudo Pode Dar Certo”), genial e hilariante!

Paula Soveral
Lisboa, 25/2/2010

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