Coração leve

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Coração leve

Coração leve

Leonardo Boff
JB, 12/03/2004

Quem é ”gente boa” tem um coração leve. Que é ter um coração leve?
Talvez pelo reverso, o coração pesado, possamos entender um pouco.

Ter coração pesado é viver preocupado e até neurótico por causa do emprego, do salário, das contas a pagar, da escola das crianças, das drogas, da violência das ruas, da bala perdida. E se tem um negócio: como enfrentar a concorrência, como incorporar tecnologia nova, como ser mais eficiente na administração? O coração pesado não nos deixa dormir tranquilos. Porquê?

Para responder a essa questão, precisamos cavar fundo no tipo de civilização que criamos e mundializamos. Nossa civilização é extremamente complexa.

Mas um motor escondido move todas as rodas e bielas: a vontade de poder e seu exercício na forma de dominação. Queremos dominar a natureza, chegar até seus últimos confins, dominar as forças da sociedade, dominar as energias psíquicas, dominar o código da vida. E tirar, de tudo, proveito, mesmo com custos ecológicos funestos.

Essa civilização produziu, em nós, dois sentimentos:
um de exaltação e outro de medo. Exaltação, pela tecnociência que tantas facilidades trouxe à nossa vida, fazendo com que crianças morram menos e idosos vivam mais e nos levando à Lua. Medo, pela capacidade de destruição em massa que ela proporciona. O fim da história humana não é mais coisa de Deus, mas coisa dos homens, pois montamos o princípio de nossa autodestruição.

Para limitar essa capacidade de demência, inventamos os direitos dos humanos, dos animais, da natureza e o conceito da dignidade da Terra. Mesmo assim, qual é o resultado final e existencial desse processo civilizatório?
O coração pesado. Perdemos a confiança na vida e o prazer inocente de viver.

Exilamo-nos da Terra e rompemos os laços de fraternidade que nos uniam à natureza. O que o ser humano mais teme é o outro ser humano. Ele está só com seu poder-dominação. E quanto mais acumula poder, mais tenso fica seu rosto, mais fundas as rugas, mais inseguro o olhar. Não sabemos para onde vamos. E o nosso coração fica cada vez mais pesado.

Como gestar um coração leve? Começando a viver já agora dois valores que fundam outro princípio civilizatório: a simplicidade e a humildade voluntárias.
A simplicidade não é a espontaneidade natural do inocente. É fruto de uma maturidade humana. Surge quando afastamos o que separa o eu do outro e da natureza, que é a vontade de possuir e dominar. Removido esse obstáculo, descobrimos que somos todos irmãos e irmãs, da estrela e de cada ser vivo. São Francisco de Assis é o arquétipo desse modo de ser.

A humildade é colocar-se no mesmo chão onde estão todos os seres e perceber o mesmo húmus do qual todos vivem. Chuang-Tzu é o arquétipo desse valor (veja a Via de Chuang-Tzu). Ele conseguia ver o Tao tanto no esterco quanto no príncipe. O efeito dessa visão para esses mestres, do Ocidente e do Oriente, era a conquista de um coração leve.

Terás um coração leve se enxergares nos canteiros da rua o verde e, nele, a flor que sorri. Se ao olhar para cima veres, além dos prédios, a nuvem que passa.

Se ao encontrar um pobre conseguires encher teus olhos com sua presença e vê-lo como irmão. Se fizeres tudo isso, saberás o que é viver com o coração leve. Não serás amargo nem ganancioso. Contigo começa outro tipo de civilização. E poderás dormir sem o peso duma pedra no peito. Por causa do coração leve.

(Nota: O autor é Teólogo conhecido por uma polémica que fundamentou a partir de uma teoria sua chamada: “Teologia da libertação”.)

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