Efatá”, Abre-te

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Efatá”, Abre-te

Efatá”, Abre-te

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves

DOMINGO XXIII COMUM Ano B

Faz que os surdos oiçam
e que os mudos falem.

Mc 7,37

Anselm Grün não é um nome desconhecido para quem navega pelos escritos da espiritualidade. Ao vivo, para lá da dificuldade de o escutar pela tradução directa do alemão, lembra algumas imagens do patriarca S. Bento, de quem é filho espiritual por vocação, com as longas barbas e o hábito escuro de beneditino. Tive o privilégio de o ouvir ao longo da primeira tarde do Simpósio do Clero na semana passada em Fátima.

Dar ouvido aos surdos e soltar a língua dos mudos eram sinais do Messias esperado. Aquele que não ouve, regra geral, também não fala. Vive numa dupla prisão que o isola dos outros. Ouve-se a si mesmo e poucos entendem o que gostaria de exprimir. Está impedido de ser discípulo (como escutar o que Deus fala?) e de ser apóstolo (como pode falar em nome de Deus?). Mas nós sabemos que não é assim, pois não? Não basta receber todas as vibrações a que chamamos sons para, verdadeiramente, ouvir. Não basta soltar a língua para, verdadeiramente, comunicar. E quando se trata de Deus, Ele sabe tão bem falar-nos e falar em nós sem palavras! Anselm Grün pedia uma “linguagem que toque as pessoas, que não as julgue mas desperte vida nelas. Jesus falava aquecendo os corações; nunca com uma linguagem fria. Deus é visível, ou não, na linguagem que utilizamos.

O que Jesus não gosta mesmo nada é de prisões! Continua a não ser fácil deitá-las abaixo, mas seria também importante não erguer novas. Algumas são físicas e materiais; prendem a uma cama, a uma cadeira de rodas, a um lugar atrás de grades. Outras são ideológicas e espirituais; prendem a um preconceito, a um fanatismo, a um vício. E as piores são as que criamos dentro da mente e do coração. Dizia Anselm Grün: “É preciso escutarmo-nos. Escutar as nossas raivas. Encontrar o nosso tesouro. Com humildade. E aceitação. Só o que é aceite pode ser curado. Só que mostro a Deus pode ser transformado. Para Deus tudo é possível e para nós tudo é transformável.

O sopro de Jesus tem um sabor de recriação. “Efatá” é uma ordem: algo que Deus quer fazer mas em que precisa de nós. Abrir-me é também expor os meus limites e feridas. É reconhecer que não sou perfeito mas humano. Lembrava Anselm Grün: “Ajudo os outros mas também tenho problemas. Preciso aprender a humildade e a sinceridade. A ser feliz com a minha condição. Aceitar a minha verdade é condição para ser mais verdadeiro.” Isto não ajuda a libertar só quem é padre, pois não?

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