“Não sou o único”

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“Não sou o único”

“Não sou o único”

À PROCURA DA PALAVRA

P. Vítor Gonçalves

DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM   Ano A

Tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento.
Fl 4,8

Este ambiente de crise em que estamos envolvidos, do instável preço do petróleo às cavalgadas das taxas de juro, do sobe e desce das bolsas às situações desesperantes dos mais necessitados, traz consigo um sentimento de que é algo que atinge todos (mais a uns que a outros, mas estamos no mesmo barco!). Fico perdido no meio dos números e não consigo deixar de me indignar com o absurdo do luxo e da opulência de algumas vidas. Questiono-me sobre as opções económicas que privilegiam o lucro escandaloso que não gera desenvolvimento, e caio na tentação de “ler” a parábola dos vinhateiros homicidas, como se fosse um retrato do mundo, em que nos arvoramos em ser donos e continuamos a “matar” filhos, lançando-os fora da vinha! Como dizia o Zé Pedro e cantavam os Xutos e Pontapés, também acho que “não, não sou o único / não sou o único a olhar o céu“!

Coincidem estes dias com as vindimas e o Evangelho sublinha-o em parábolas lindíssimas. São espantosas sínteses da história da Salvação; de um Deus que trabalha e dá trabalho, que se maravilha quando descobrimos como é bom trabalhar na sua vinha, que diz claramente aos que se julgavam “os únicos” em santidade e grandeza em Israel (os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo da parábola de hoje), que o reino de Deus lhes será tirado e “dado a um povo que produza os seus frutos” (quer dizer, quem ame mesmo e não ande por aí em fingimento e hipocrisia!). A sede de poder e protagonismo podem aparecer em qualquer lugar e o campo religioso parece que os potenciam. Ainda pesa muito a lógica dos privilégios e dos méritos de quem acredita: mais “cumpridor” das leis e mandamentos, mais “perto” de Deus, mais “conhecedor” da sua vontade, mais “protegido” das intempéries, mais “merecedor” da salvação! Ainda bem que Jesus veio escaqueirar esta lógica auto-suficiente. Graças a Deus que Deus não fica preso nas pretensões de nos considerarmos “os únicos”!

É verdade, hoje tenho andado com a canção dos Xutos. Porque acredito que o amor de Deus nos faz sempre únicos mas, quando nos julgamos os únicos fechamo-nos a esse amor, e toda a auto-suficiência acaba por matar. Muitos judeus julgavam-se melhores que os outros homens porque tinham uma Lei e liam a Bíblia, mas Jesus ensina que conhece melhor a Deus quem se converte e ama. E até São Paulo irá reconhecer essa presença de Deus em “tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor.” Ser único mas não ser “o único” que implicações nos traz?

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